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A história completa sobre a Revolta de Aragarças, tentativa de golpe contra a república em 1959

Jun 12, 2026  Redação  Contador
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Por: Ricardo Rogers

Enquanto o país celebrava os anos dourados do desenvolvimentismo e a construção de Brasília simbolizava a promessa de um novo futuro, uma conspiração silenciosa se desenrolava nos bastidores do poder. Em meio ao clima tenso da Guerra Fria, um grupo de oficiais das Forças Armadas acreditava que a nação estava à beira do colapso, ameaçada pela corrupção e pela expansão da influência comunista.

Na madrugada de 2 de dezembro, os conspiradores colocaram em marcha um plano audacioso: sequestraram cinco aeronaves, incluindo um voo comercial com dezenas de passageiros a bordo, ocuparam a estratégica Base Aérea de Aragarças, no interior do Brasil, e prepararam uma ofensiva que tinha um objetivo extremo — bombardear os palácios do Catete e das Laranjeiras e eliminar o presidente Juscelino Kubitschek.

A operação fazia parte de uma tentativa de provocar o caos institucional e forçar a decretação de um estado de sítio, criando as condições para um golpe de Estado. Muitos dos envolvidos já haviam participado de uma rebelião anterior, em 1956, e haviam sido anistiados pelo próprio JK.

A eleição de Juscelino

Após o breve interregno de políticas liberais implementadas por Café Filho, a agenda desenvolvimentista seria retomada por Juscelino Kubitschek (JK). Candidato à presidência pelo PSD, JK se apresentou ao eleitorado como herdeiro político de Getúlio Vargas, prometendo trazer ao Brasil “50 anos de desenvolvimento em 5 anos de mandato”.

A principal plataforma eleitoral de JK era o seu “Plano de Metas”, um programa de modernização econômica e planejamento estatal, que pretendia acelerar a industrialização e melhorar a infraestrutura. O projeto congregava 31 metas distribuídas em cinco eixos centrais: energia, transporte, alimentação, indústria de base e educação.

Juscelino foi eleito presidente com 35% dos votos em outubro de 1955. João Goulart, o ex-Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, também ganhou a disputa pela vice-presidência. À época, as eleições eram realizadas em turno único e o vice-presidente concorria ao cargo em votação independente.

Nota: Na noite de 10 de fevereiro de 1956, dois oficiais da Aeronáutica, o major Haroldo Veloso e o capitão José Chaves Lameirão, tomaram um avião de combate na Base Aérea de Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, e voaram até uma guarnição da Força Aérea Brasileira (FAB) situada em Jacareacanga, no sudoeste do Pará.

Na pequena base da Floresta Amazônica, os oficiais iniciaram a cooptação de seringueiros e moradores locais, tentando formar um exército rebelde para derrubar JK. Os golpistas pretendiam dominar localidades estratégicas para forçar a reação do governo. Acreditavam que, uma vez iniciado o confronto, os militares que se opunham a JK iriam aderir ao levante.

A intentona se prolongou por 19 dias. Os militares chegaram a dominar as cidades de Itaituba e Santarém, mas a articulação da revolta era bastante frágil e não encontrou respaldo nas Forças Armadas.

JK agiu com cautela, tentando evitar que a crise se agravasse. Diante da recusa dos oficiais da Aeronáutica em reprimir o levante, o presidente mobilizou paraquedistas e tropas do Exército. A maioria dos insurgentes fugiu para as selvas da Bolívia, incluindo o capitão Lameirão.

O major Haroldo Veloso foi o único militar preso durante a repressão ao movimento golpista, mas não chegou a ser punido. Em março de 1956, o governo JK encaminhou ao Congresso um projeto de anistia, beneficiando não apenas os membros da Revolta de Jacareacanga, mas também os líderes políticos e militares que participaram do movimento pela impugnação de sua posse em 1955.

A Revolta de Aragarças

O país vive um período de crescimento econômico acelerado. Sob o governo de Juscelino Kubitschek, rodovias cortam o interior, fábricas se multiplicam e uma nova capital surge do cerrado. Mas, por trás da imagem de prosperidade e modernidade, uma guerra silenciosa é travada nos bastidores do poder.

Em março de 1956, o presidente concede anistia aos militares envolvidos na Revolta de Jacareacanga, uma frustrada tentativa de golpe contra seu governo. O gesto de conciliação, no entanto, não encerra a crise. Para alguns daqueles oficiais, a derrota era apenas um contratempo.

Já em 1957, um novo plano começa a ser articulado. À frente da conspiração está o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier, acompanhado pelo major Haroldo Veloso, um dos líderes da rebelião anterior. Reunidos sob a bandeira do autodenominado "Comando Revolucionário", 15 militares e 3 civis passam a planejar uma ação capaz de derrubar o governo.

Os conspiradores afirmam estar lutando para salvar o Brasil da corrupção administrativa e da infiltração comunista. Acusam o general Henrique Teixeira Lott — ministro da Guerra e principal fiador da legalidade constitucional — de ter traído as Forças Armadas. Na atmosfera carregada da Guerra Fria, boatos e teorias conspiratórias alimentam o radicalismo.

O anúncio da desistência de Jânio Quadros da corrida presidencial de 1960 funciona como o estopim. Embora o candidato voltasse atrás poucos dias depois, a notícia espalha o temor de que os trabalhistas pretendiam perpetuar-se no poder. Rumores se multiplicam: Juscelino estaria articulando uma emenda para permitir sua reeleição indefinida; Leonel Brizola e João Goulart preparariam um golpe de esquerda; adversários políticos seriam executados em tribunais revolucionários.

Para os integrantes do "Comando Revolucionário", era a justificativa perfeita para agir.

Na madrugada de 2 de dezembro de 1959, a operação entra em curso. Sob o comando de Burnier, dez militares invadem a Base Aérea do Galeão e tomam três aeronaves Douglas C-47, carregando-as com armas e explosivos antes de seguir para a Base Aérea de Aragarças, no interior de Goiás. Ao mesmo tempo, em Belo Horizonte, outro grupo liderado pelo major Washington Mascarenhas sequestra um avião Beechcraft D-18 no Aeroporto da Pampulha.

Era uma ação coordenada, ousada e sem precedentes. Ao todo, cinco aeronaves seriam capturadas, incluindo um voo comercial com dezenas de passageiros transformados em reféns. O objetivo final ia muito além da ocupação de uma base aérea.

O plano previa bombardear os palácios do Catete e das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, então centros do poder político nacional, e assassinar o presidente Juscelino Kubitschek. O ataque desencadearia uma crise institucional de grandes proporções, forçando a decretação do estado de sítio. No caos subsequente, os conspiradores acreditavam que teriam o caminho aberto para consumar um golpe de Estado.

O fim do levante

No dia 3 de dezembro de 1959, os revoltosos divulgaram seu “Manifesto do Comando Revolucionário”, onde afirmavam que o poder executivo era corrupto, o legislativo era demagógico e o judiciário era omisso. Denunciavam também a presença de “adeptos do comunismo infiltrados nos mais variados setores, dentro e fora da administração pública”, que pretendiam “implantar o seu regime de escravidão do ser humano”.

Os insurgentes imaginavam que teriam forte apoio dos militares, mas nenhuma unidade aderiu à revolta. Mesmo entre os opositores de JK no parlamento, prevaleceu a condenação do ato — excetuando-se os udenistas Otávio Mangabeira, Afonso Arinos e Daniel Krieger, que exaltaram o levante.

Ciente dos riscos envolvidos, JK se recusou a decretar estado de sítio. Mais uma vez, o movimento golpista foi debelado pelo general Teixeira Lott. No dia 4 de dezembro de 1959, forças do Exército e paraquedistas iniciaram uma incursão à Base de Aragarças, sufocando o levante. Os militares revoltosos, no entanto, conseguiram escapar, refugiando-se na Argentina, Paraguai e Bolívia.

As investigações posteriores revelaram o nome do marechal Castelo Branco como um dos principais articuladores da revolta. O inquérito contra o oficial, no entanto, foi rapidamente arquivado e as tentativas de extradição dos golpistas foram malsucedidas. Em abril de 1960, um pedido de anistia aos golpistas foi derrotado no Congresso, mas, na prática, nenhum dos sediciosos foi punido.

Vários dos oficiais envolvidos na Revolta de Aragarças teriam papéis centrais no golpe de 1964 — incluindo Castelo Branco, primeiro chefe de governo da ditadura militar. João Paulo Moreira Burnier, o líder da insurreição, seria apontado como o responsável pela morte de Rubens Paiva, Stuart Angel Jones e Anísio Teixeira.


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