Nestas eleições em Mato Grosso vamos chegar ao absurdo total. No estado da matança de mulheres e da violência doméstica, existem candidatos a governador e a senador que fogem desta pauta como o diabo foge da cruz. Tratam como um “não-assunto”, seja porque têm histórico pessoal de violência doméstica ou porque se fiam nas pesquisas que apontam que a sociedade de Mato Grosso está se lixando para a violência contra as mulheres, sejam mães, esposas, filhas, irmãs ou netas. Uma apatia cúmplice que beneficia o político omisso, agrava o contexto da violência contra as mulheres e a escalada da matança.
Há luz no fim do túnel. Alunos da UFMT ensinam como essa pauta pode e deve se manter viva, em respeito às mulheres de Mato Grosso. Dois curtas-metragens produzidos por estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foram exibidos neste último sábado (04.07) durante a programação oficial do 23º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá – Cinemato.
Os curtas são o entrelaçamento da arte do audiovisual e o conteúdo de crítica social. Um belo exemplo de ativismo dos jovens que deve reverberar e mobilizar a sociedade de Mato Grosso. Os estudantes, segundo a professora doutora Cláudia Moreira, do Curso de Cinema e Audiovisual da UFMT, produziram os curtas “Ele cuida de mim” e “Live”, o primeiro com 4 minutos e meio de duração e, o segundo, com 5 minutos e 15 segundos.
“Os filmes desta sessão não foram encomendados nem partiram de roteiros prontos. São obras autorais, concebidas, escritas e produzidas pelos próprios estudantes durante a oficina, revelando o audiovisual como uma ferramenta de expressão, conscientização e transformação social”, disse a professora Cláudia, que ministra a disciplina de Produção Sonora.
A aparente apatia ou falta de comoção social diante dos índices alarmantes de feminicídio e violência doméstica em Mato Grosso — estado que frequentemente lidera ou figura no topo dos rankings nacionais dessa modalidade de crime — é um fenômeno complexo. Ela não decorre de uma maldade intrínseca da população, mas sim de engrenagens estruturais, discursivas e cotidianas que operam para dessensibilizar a opinião pública.
Quando um fenômeno violento se torna cotidiano, ele corre o risco de ser absorvido pela rotina urbana e midiática. Em Mato Grosso, a recorrência dos casos cria uma espécie de “ruído de fundo”. O público consome a notícia do feminicídio não mais como uma ruptura ética ou uma monstruosidade excepcional, mas como um dado estatístico crônico. A repetição exaure a capacidade de indignação, transformando a barbárie em um fato esperado.
Grande parte da cobertura midiática regional ainda é pautada pelo jornalismo policial tradicional ou pelo formato declaratório (que apenas replica boletins de ocorrência ou falas oficiais de autoridades). Esse modelo tende a focar no “fato consumado” (o corpo, a facada, a prisão em flagrante) de forma isolada. Ao não contextualizar o feminicídio como o desfecho de um longo ciclo de violência de gênero — e ao falhar em humanizar a trajetória daquela mulher —, a narrativa esvazia a dimensão política e social do crime. A sociedade passa a enxergar o ocorrido como uma “tragédia doméstica particular” e não como uma falha coletiva e institucional.
Mato Grosso possui uma formação socioeconômica e cultural fortemente marcada pelo patriarcado rural, pelo conservadorismo e por estruturas rígidas de poder. Em ambientes onde os papéis de gênero são altamente tradicionais, sutilmente sobrevive a noção de que o espaço doméstico é privado e de que as dinâmicas de posse do homem sobre a mulher pertencem ao âmbito da intimidade. Esse caldo cultural faz com que condutas que antecedem o feminicídio — como o controle psicológico, a injúria e a ameaça — sejam frequentemente minimizadas pelos vizinhos, parentes e, por vezes, pelos próprios agentes da rede de proteção.
Muitas vezes, o debate público sobre o tema é sequestrado por discursos puramente punitivistas que defendem que o problema se resolve apenas com o aumento de pena ou o rigor da prisão. No entanto, o agressor de violência doméstica frequentemente opera sob uma lógica de privilégio e impunidade subjetiva (muitos não se reconhecem como criminosos, justificando seus atos em pesquisas como “injustiçados” ou tomados pela emoção). Quando a resposta social se resume a lamentar a lei ou pedir mais cadeia após a morte, esvazia-se a cobrança por políticas públicas eficazes de prevenção primária, educação de gênero e monitoramento real (como o uso massivo de tornozeleiras e patrulhas preventivas).
Em um cenário de crescente hostilidade e polarização nos ambientes digitais, os afetos sociais foram fragmentados. A violência contra minorias ou grupos vulneráveis sofre um processo de triagem ideológica ou de distanciamento: se a vítima não faz parte do círculo imediato do indivíduo, a capacidade de sofrer com aquela dor é mitigada. A dor do outro é consumida rapidamente em um “scroll” de tela e substituída pelo próximo acontecimento.
O desafio para que esses crimes voltem a chocar e, consequentemente, mobilizar a sociedade civil organizada exige uma mudança radical de perspectiva: é preciso deslocar o olhar do “monstro que mata” para a “estrutura que permite e tolera” o avanço de cada degrau da violência.
O debate sobre os desafios enfrentados no combate ao feminicídio e à violência doméstica e o impacto da banalização social desses crimes no cotidiano das comunidades do interior e de Cuiabá tem que ser aprofundado, tornando-se pauta destas eleições. O que os candidatos a governador e a senador têm a falar? Quais propostas têm para apresentar? É um assunto de interesse público muito grande que não pode ser varrido para debaixo do tapete do gabinete do governador no Palácio Paiaguás.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação pela UFMG.
Fonte: Pnb Online