Barra do Garças - MT

Promessa de negócio próprio atraiu vítima de feminicídio em Confresa (MT)

A ambição de abrir o próprio restaurante e conquistar a independência financeira foi o pretexto utilizado por José da Cruz Evangelista, de 63 anos, para atrair a cozinheira Daiany Rodrigues de Souza, de 33 anos, para o convívio doméstico. O desfecho dessa aproximação ocorreu no início de julho de 2026, quando Daiany foi perseguida e morta a facadas pelo parceiro em um bar de Confresa, (a 830 km de Primavera do Leste). O crime ilustra de forma trágica a escalada da violência doméstica baseada em gênero e controle patrimonial.

Daiany trabalhava na cozinha de uma fazenda da região quando aceitou o convite do suspeito. Em entrevista ao portal g1 Mato Grosso, a irmã da vítima relatou que a família sabia do histórico de brigas frequentes, mas desconhecia a gravidade das ameaças de morte. “Ela tinha um terreno em Confresa e ele prometeu que iria ajudá-la a montar um restaurante nesse terreno. Ela sempre trabalhou muito. Não sabíamos que o relacionamento deles era tão abusivo”, desabafou a familiar

Histórico de Ameaças e Medida Protetiva

A dinâmica do casal já havia alertado as autoridades meses antes. Em janeiro, Daiany registrou uma ocorrência de violência doméstica após José encostar uma faca em seu pescoço e ameaçar matá-la e cometer suicídio em seguida. A Justiça chegou a conceder uma medida protetiva de urgência.

Dias antes de ser assassinada, a vítima gravou um vídeo que circulou nas redes sociais onde confrontava José sobre o episódio. Na gravação, o agressor reafirmava suas intenções: “Minha intenção é te matar e me matar”. Apesar do risco latente, Daiany acabou reatando a convivência com o agressor. Conforme explicou a Polícia Civil, a queixa e a medida protetiva continuavam juridicamente ativas, uma vez que a retomada informal do relacionamento não anula o mecanismo de proteção do Estado.

Dinâmica do Crime e Prisão Preventiva

O ataque fatal ocorreu na madrugada de um sábado, motivado por ciúme patrimonial. Enquanto consumiam bebidas alcoólicas em um bar no bairro Jardim Planalto, José consultou o aplicativo de seu banco e percebeu uma transferência recente de R$ 1 mil. Inconformado com a movimentação financeira, ele confrontou Daiany e sacou uma faca. O proprietário do bar tentou intervir para proteger a cliente, sendo ferido de raspão no braço.

A cozinheira tentou se abrigar em um dos quartos do estabelecimento, mas foi perseguida e golpeada repetidamente, a maioria das vezes pelas costas, sem chances de defesa. José fugiu logo após o crime, mas se apresentou na delegacia local no período da tarde acompanhado por um advogado.

O juiz plantonista Felipe Barthon Lopez converteu a prisão em preventiva, destacando na decisão que o crime seguiu o ciclo típico da violência de gênero. O magistrado ressaltou que a execução brutal por meio de perseguição traduziu um claro “menosprezo à condição de mulher”.

O assassinato de Daiany Rodrigues de Souza acende mais um alerta sobre a segurança das mulheres em Mato Grosso. De acordo com dados do Observatório Caliandra, mantido pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), o caso representa o 26º feminicídio registrado no estado ao longo do ano de 2026.

O mapeamento estatístico dos últimos meses aponta uma tendência clara e alarmante na região:

  • Autoria íntima: Em cerca de 80% das ocorrências mapeadas no estado, o autor do crime é o parceiro ou ex-parceiro da vítima.
  • Vulnerabilidade doméstica: A maior parte dos ataques fatais ocorre no período noturno ou durante a madrugada, dentro da residência da vítima, do agressor ou em locais de convívio próximo.
  • Subnotificação do risco: Casos recentes mostram que, embora ferramentas como o aplicativo SOS Mulher MT (que possui botão do pânico) estejam disponíveis para auxiliar o cumprimento de medidas protetivas, o isolamento geográfico e a dependência econômica no interior do estado dificultam o rompimento definitivo do ciclo de abuso.

O inquérito policial segue sob a condução da Polícia Civil de Confresa para a conclusão dos laudos periciais da Politec antes do oferecimento da denúncia pelo Ministério Público.

Fonte: Click F5

Nosso Araguaia