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O jarro de argila que reescreveu a história do cristianismo

Ricardo Rogers – Aragarças

Em 1945, dois camponeses egípcios à procura de fertilizante encontraram, sem saber, o maior tesouro gnóstico da Antiguidade

Foi em dezembro de 1945, nas margens do Nilo, próximo à cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, que a história da espiritualidade ocidental ganhou um capítulo inesperado. Dois irmãos egípcios encontraram diversos papiros dentro de uma grande jarra de argila enquanto procuravam fertilizante em cavernas de rocha calcária. Não sabiam que seguravam nas mãos um dos achados arqueológicos mais importantes do século XX.

A jarra continha treze códices de papiro embrulhados em couro, reunindo cinquenta e dois textos — a maioria de tradição gnóstica, além de fragmentos do Corpus Hermeticum e um trecho de “A República”, de Platão. Entre eles, o célebre Evangelho de Tomé e o Apócrifo de João, que narra uma cosmogonia alternativa sobre a criação do mundo e o papel do demiurgo.

O caminho até os estudiosos foi tortuoso: os manuscritos ficaram guardados por semanas, até meses, na casa dos descobridores, sem que se percebesse seu valor histórico, envolvidos ainda em rixas de família. Só décadas depois, com a tradução integral, o mundo acadêmico compreendeu o alcance da descoberta: uma voz silenciada do cristianismo primitivo, marginalizada pela ortodoxia que se tornaria hegemônica.

Hoje os códices repousam no Museu Copto do Cairo — testemunhas de uma espiritualidade que buscava o divino não fora, mas dentro de si.

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