O delegado Bruno Sérgio Magalhães Abreu detalhou nesta quarta-feira (15.07), diante dos jurados, como a Polícia Civil reconstruiu a execução do advogado Renato Gomes Nery e chegou ao homem acusado de efetuar os disparos, aos supostos intermediários e ao casal apontado como mandante do crime.
Responsável pelas primeiras diligências do caso, Bruno falou por cerca de duas horas no Tribunal do Júri de Cuiabá, após o depoimento de Lívia Moreira Gomes Nery, filha da vítima. No banco dos réus está o caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva, acusado pelo Ministério Público de ser o autor dos tiros que mataram o advogado em julho de 2024.
O delegado afirmou que a investigação começou poucas horas após o crime, com uma busca por imagens de câmeras de segurança que permitissem identificar o atirador e reconstruir sua rota de fuga. Segundo Bruno, equipes trabalharam durante toda a sexta-feira em que ocorreu o ataque e também no sábado e no domingo seguintes, recolhendo gravações em diferentes pontos de Cuiabá e Várzea Grande.
As imagens mostraram que o atirador chegou ao escritório de Renato Nery em uma motocicleta Honda Titan vermelha sem placa, vestido com roupas escuras e camufladas. Após os disparos, ele fugiu pela rua La Paz, seguiu em direção a Várzea Grande, passou pela avenida da FEB e pela ponte Sérgio Motta e, depois, pela Rodovia dos Imigrantes.A última imagem do motociclista foi registrada cerca de 30 minutos após o crime, já na região do Capão Grande.
Foi a partir desse ponto, segundo o delegado, que os investigadores conseguiram restringir a área de buscas. Ao revisitar as gravações e descartar possíveis rotas de saída, a polícia chegou a uma região de chácaras e, posteriormente, a um imóvel ligado ao policial militar Heron Teixeira Pena Vieira.
De acordo com o depoimento, Alex frequentava e dormia na chácara, circulava em uma motocicleta vermelha sem placa e foi reconhecido por testemunhas a partir de fotografias.
No local, segundo Bruno, foram encontradas a chave de uma motocicleta Honda vermelha e fotografias do filho de Alex. A chácara estava pintada de branco e azul e tinha uma placa com a inscrição “Comando Especializado de Polícia Militar”, que, na avaliação da investigação, servia para afastar curiosos.
O delegado também relatou aos jurados que Alex trocou de telefone várias vezes nos dias posteriores ao assassinato. Segundo a investigação, houve mudanças de aparelhos nos dias 5, 6, 10 e 11 de julho de 2024.
No dia 10, a polícia realizou uma blitz nas proximidades da chácara. No dia seguinte, conforme Bruno, Heron teria dado um iPhone a Alex.
Arma e munição
Outro elemento central da investigação foi a perícia balística. Sete cápsulas de calibre 9 milímetros foram recolhidas na cena do crime. De acordo com o delegado, a análise do lote indicou que as munições haviam sido compradas pelo Estado de Mato Grosso em 2023 e destinadas à Polícia Militar, especificamente à Rotam.
Dias depois do assassinato, uma pistola Glock 9 milímetros apareceu em uma ocorrência policial que terminou com três mortos, entre eles um adolescente. O exame de balística concluiu que a arma era a mesma utilizada no homicídio de Renato Nery.
Segundo Bruno, a suspeita de envolvimento de policiais já havia surgido no início da investigação. Imagens da fuga mostravam que o atirador aparentemente utilizava um colete à prova de balas sob a roupa, enquanto o áudio de uma das gravações indicava o uso de uma arma capaz de disparar em rajada.
A investigação também apurou que o autor do crime sabia que a câmera que poderia registrar diretamente os disparos estava quebrada. Segundo o delegado, o executor esteve no mesmo local um dia antes do homicídio, mas Renato não chegou ao escritório naquela ocasião.
R$ 200 mil pela execução
Bruno afirmou ainda que a polícia encontrou elementos que apontavam para uma promessa de pagamento de R$ 200 mil pela morte do advogado.
Segundo o delegado, foram identificados desentendimentos e cobranças entre integrantes do grupo, além da entrega de veículos e de uma motocicleta como parte do pagamento. Mensagens e cartas também teriam ajudado a polícia a conectar os supostos executores e intermediários aos apontados como mandantes.
De acordo com a acusação, o assassinato foi motivado por uma disputa judicial envolvendo uma propriedade rural em Novo São Joaquim, a 448 km de Cuiabá.
O casal Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi é apontado pelo Ministério Público como mandante do crime. Os policiais militares Jackson Pereira Barbosa, Ícaro Nathan Santos Ferreira e Heron Teixeira Pena Vieira são acusados de participar da organização da execução, do recrutamento do atirador, da intermediação dos pagamentos e do fornecimento da arma.
Durante o depoimento, Bruno afirmou também que o celular de Julinere foi formatado quatro dias após o assassinato, fato que chamou a atenção dos investigadores quando uma ordem de busca e apreensão foi cumprida meses depois.
Renato Nery, de 72 anos, foi baleado na manhã de 5 de julho de 2024, quando desembarcava de um veículo em frente ao escritório onde trabalhava, na avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá.
Alex Roberto é o primeiro dos seis denunciados pelo crime a ser julgado. A sessão começou às 9h desta quarta-feira no Fórum de Cuiabá e é transmitida ao vivo pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso no YouTube. Confira ao vivo:
Fonte: Pnb Online