Mato Grosso convive com um dos cenários mais preocupantes do país quando o assunto é violência contra a mulher. Entre 2019 e 2025, o estado registrou 338 feminicídios, segundo dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso, e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esses números evidenciam que o assassinato de mulheres permanece entre os maiores desafios para o poder público e representam vidas interrompidas, famílias destruídas e gerações marcadas pela violência.
Somente em 2025, 54 mulheres foram assassinadas e 89 crianças ficaram órfãs em decorrência desses crimes no estado. Até junho de 2026, outros 22 casos já haviam sido registrados, deixando pelo menos 23 filhos sem suas mães, conforme dados da Polícia Judiciária Civil (PJC-MT). Esses indicadores reforçam a urgência de políticas permanentes de prevenção, proteção e garantia dos direitos das mulheres.
Apesar dos avanços proporcionados pela Lei Maria da Penha e pela tipificação do feminicídio, o Brasil registrou, em 2024, 1.492 vítimas, o maior número desde a criação desse tipo penal. Em 2025, os registros oficiais superaram 2 mil mulheres assassinadas, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, demonstrando que a violência letal contra as mulheres continua sendo uma das mais graves violações de direitos humanos no país.
O perfil das vítimas também revela profundas desigualdades. As mulheres negras representam 67,5% dos casos, segundo o Atlas da Violência 2026, evidenciando que o feminicídio é agravado por desigualdades sociais, raciais e econômicas.
Por isso, o enfrentamento dessa realidade não pode se limitar à resposta penal. Muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por medo, dependência econômica, ausência de rede de apoio ou dificuldade de acesso aos serviços de proteção. Romper esse ciclo exige acolhimento, fortalecimento da autonomia feminina e políticas públicas capazes de agir antes que a violência alcance seu desfecho mais cruel.
A educação é uma das ferramentas mais eficazes para prevenir a violência contra as mulheres. Diversos estudos demonstram que a permanência na escola amplia as oportunidades de inserção no mercado de trabalho, fortalece o conhecimento dos próprios direitos e reduz fatores historicamente associados à vulnerabilidade feminina. Políticas públicas como creches, educação em tempo integral, qualificação profissional, Bolsa Família e Pé-de-Meia ampliam oportunidades, promovem autonomia e contribuem para reduzir situações de dependência e violência.
Neste ano eleitoral, essa discussão ganha ainda mais relevância. As mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro e terão papel decisivo na definição dos rumos do país. Não basta cobrar respostas quando a violência já aconteceu. É preciso eleger representantes comprometidos com políticas públicas capazes de prevenir o feminicídio, fortalecer a rede de proteção e garantir que meninas e mulheres possam viver sem medo.
O país precisa superar respostas simplistas e promover um debate público mais qualificado sobre as raízes dessa violência. O enfrentamento do feminicídio exige políticas integradas que ampliem a proteção às vítimas, fortaleçam sua autonomia, promovam educação para a igualdade e assegurem que o Estado cumpra seu dever de proteger vidas. Essa é uma agenda urgente, que exige compromisso permanente, investimento público e ação efetiva.
*Guelda Andrade é mestra em Educação pela UFMT, especialista em Gestão Escolar, servidora da educação pública e dirigente nacional da CNTE. Atua na defesa da educação pública, da valorização dos profissionais da educação e do fortalecimento das políticas educacionais brasileiras.
Fonte: Esporte e Notícias



